Mapa das etnias indígenas presentes nos séculos XVI e XX
Referência: VENTURA, N. C. Índio: recontando a nossa história. 2 ed. rev. e ampl. – São Paulo: Noovha América, 2008.
Algumas etnias localizadas na Planície Amazônica
KAYAPÓ

Como os demais guerreiros jê, os kayapó se destacaram ao longo da história por defender bravamente seu território. O verdadeiro nome da etnia é mebengokê, que significa “gente do buraco da água”. Segundo sua tradição, o povo surgiu de um buraco e passou pela “grande água” do rio Araguaia.
Com a ocupação portuguesa da região norte de Goiás, os kayapó se refugiaram nas matas do sul do Estado e no Pará. Os indígenas dessa etnia usam botoque na orelha e, algumas vezes, no lábio inferior, Homens, mulheres e crianças pintam o corpo ricamente. Essa pintura, além de servir como vestimenta, é uma forma de comunicação. Ela indica alegria, dor, tristeza ou agressividade. Pode-se dizer que a pintura para os kayapó é uma forma de escrita e expressão. Muitas de suas pinturas corporais são verdadeiras obras de arte com traçados geométricos.
Outra característica do mundo kayapó é a marca das oposições: dia e noite, preto e vermelho, Sol e Lua, chuva e seca, homem e mulher. Até a construção das aldeias apresenta oposição. O centro é o lugar dos homens, da casa dos solteiros, onde eles reúnem e fazem artesanato. Na parte externa ficam as casas das famílias, onde a autoridade é exercida pela mulher. A chefia da aldeia se alterna na época da seca e na época das chuvas. Para os kayapó, os opostos não são excludentes, mas sim complementares.
TUPI
Não resta dúvida de que os povos tupi tiveram grande influencia na formação da cultura brasileira, pois ocupavam a região litorânea na época da chegada dos europeus. Eles foram, assim, os primeiros a ter contato com esses invasores. Os tupi, dos quais os tupinambá, tupiniquim e potyguara são alguns representantes, não só não resistiram ao domínio português, como também fizeram alianças com os brancos. Tal é a importância desses povos nas nossas referências culturais que, ao se falar em indígenas, pensa-se logo na cultura tupi.
Esses povos caracterizam-se por carregar em si seu mundo cultural. Por essa razão, não se sentem apegados à terra, o que facilitou sua dispersão para o interior do território brasileiro. Vivem em aldeias pequenas, em casas construídas em círculos e um pátio central circundado por uma ou duas cercas de troncos de árvores, usadas como proteção contra ataques inimigos. Nas casas, vivem famílias numerosas, com pais, filhos e genros. Seu interior não tem divisões, mas cada casal ocupa um canto. Dormem em redes, e a mulher faz a comida.
Como povos horticultores, cultivam a mandioca, o milho, a batata-doce, a pimenta e o cará. Plantam também o fumo, que é usado não apenas para aliviar o cansaço e a fome, mas também como elemento ritualístico. As mulheres tupi cuidam das crianças, do preparo da comida e das bebidas para as festas, da fabricação da cerâmica, da plantação e da pintura do corpo. A criança é muito importante na comunidade, por isso tem-se grande cuidado com sua educação. Ensina-se aos curumins o respeito pelos mais velhos e as tradições do grupo. Não são aplicados castigos físicos.
Um chefe comanda as aldeias. Ele é escolhido em épocas de guerra ou de trabalho, momentos em que a participação de todos se faz necessária. Os pajés dirigem as cerimônias religiosas. Os espíritos possuem importante papel na cultura tupi. Acredita-se em Curupira, protetor das florestas, em Yupiara e Yara, moradores das águas dos rios, em Boitatá, cobra de fogo, em Macaxera e Anhangá, espíritos maléficos, além de outros seres encantados.
Entre várias marcas dos povos tupi na nossa cultura, podemos destacar o uso de redes para dormir, consumo de farinha de mandioca e chimarrão e o hábito do banho diário. Ainda hoje, cerca de 44 povos pertencentes a essa etnia vivem espalhados em todo o país, lutando para não perder sua cultura, língua e tradição.
ASHANINKA ou HANINKA

Este povo vive nas regiões fronteiriças entre o Brasil e o Peru. Os habitantes do lado brasileiro estão sediados no Estado do Acre, entre os rios Amazonas, Arara e Breu. Sua língua pertence ao tronco linguístico aruak. Apesar do longo tempo de contato com os brancos (cerca de 400 anos), os haninka preservam de maneira surpreendente sua cultura. São agricultores e o seu principal cultivo é a mandioca. Coletam também frutos silvestres e pescam. A caça é a atividade mais valorizada. Vivem em pequenos grupos espalhados pelas florestas. Uma característica do grupo consiste no uso de roupa por todos os membros da aldeia.
WAYANA-APARAI

Vivem na Serra de Tumucumaque, no norte do Pará, e também são chamados de aparai. Formavam no passado dois grupos distintos, ambos de língua karib. Hoje, por causa da pressão dos invasores brancos, formam um único povo com população de cerca de 400 pessoas. Eles se distinguem dos demais povos da Amazônia por serem grandes artistas, produtores de peças de artesanato e, principalmente, de cestarias ricamente decoradas. Vestem-se com tangas vermelhas e enfeitam-se com colares e pulseiras de miçangas.
Vivem à beira de rios, onde constroem suas aldeias em forma de círculos irregulares, no centro das quais fica a casa de reunião. As casas familiares são pequenas, pois abrigam somente a família nuclear, composta geralmente de quatro a seis pessoas.
A liderança da aldeia se impõe por meio de aconselhamentos e não de forma autoritária e impositiva. O líder Tamuxi sempre sugere, propõe e dá exemplos. É um povo muito alegre. Tudo é motivo para festejar: a chegada de um visitante, uma boa caçada, a construção de uma casa e a mudança de uma aldeia. A festa mais importante é o ritual da Tocandira, a formiga de fogo, uma prova de resistência guerreira.
Os wayana e os aparai acreditam que os animais e plantas têm um princípio vital que tomam a forma de espíritos. Por isso, no passado, antes da caçada, realizavam ritos e preces aos espíritos das florestas. Creem também que o homem é animado por um espírito, o akwari,que com a morte física se subdivide, uma parte permanecendo na aldeia. Sendo assim, ficar na proximidade da residência de um falecido é nocivo para os parentes, o que resulta no abandono da aldeia, principalmente quanto o morto é um pajé ou um indivíduo importante.
Para esse povo, todas as doenças e mortes são atribuídas aos feitiços de xamãs. Logo, a cura só acontece se o espírito meu for retirado pelo pajé.
YANOMAMI
Os yanomami vivem no norte da Amazônia e ficaram mundialmente conhecidos pelas denúncias de massacres e desagregação física e cultural decorrente do contato com a sociedade brasileira. Esse confronto desastroso se deu de forma mais intensa durante a construção da Perimetral Norte, a implantação do Projeto Calha Norte pelas Forças Armadas e a invasão da região por mais de 40 mil garimpeiros. Na ocasião, houve a contaminação dos rios por mercúrio, a devastação da floresta, a construção ilegal de campos de pouso e a disseminação de doenças, conlfitos e mortes.
Por serem originários de regiões montanhosas, os yanomami constroem suas aldeias em terreno alto, longe de grandes rios. Sua aldeia é formada por uma única casa comunal e por pequenas roças. Na floresta (uriki) está o seu mundo, pois lá moram os espíritos e dela vem o equilíbrio físico e mental.
As roças são feitas em círculo e cultivadas por dois ou três anos. As aldeias são formadas por um número pequeno de pessoas (30 a 150). Quando elas crescem, promove-se uma divisão, que resulta na formação de uma nova aldeia. A vida gira em torno de dois líderes: o chefe guerreiro e o pajé (xapori), que é o responsável pela relação entre os homens e os espíritos na cura dos doentes e na proteção da aldeia. Oxapori também gaurda os segredos dos antepassados e conhece os mitos. As crianças são respeitadas, gozam de grande liberdade e desde cedo participam das altividades da aldeia, imitando os adultos ou assumindo tarefas.
Entre os yanomami, a morte é um acontecimento de destaque. O corpo do morto é preparado para a viagem: os cabelos são cortados e o corpo colocado na posição fetal, embrulhado e disposto num caixote pendurado em uma árvore. Ao decompor-se, os ossos são raspados, lavados, triturados em pilão e queimados. Parte das cinzas é enterrada onde a família faz a fogueira, e a outra parte, misturada com mingau de banana e ingerida por todos. Dessa forma eles adquirem a força e as qualidades do falecido. As cerimônias funerárias duram vários dias e contam com muitos convidados. É a oportunidade de estreitar laços de amizade e realizar caçadas, brincadeiras e cerimônias religiosas.
SATERÉ MAWÉ

Os sateré mawé, povo de língua tupi, vivem em várias aldeias na região do médio Amazonas e na vale dos rios Marau e Andirá. Eles são apontados como os responsáveis pela introdução do guaraná na região. Têm forte tradição agrícola. Costumam comemorar a colheita bebendo tarubá, uma bebida fermentada tão forte que pode causar embriaguez por um mês.
A formiga tem um significado muito especial para o povo e é bastante respeitada. Apesar de a picada ser muito dolorosa, os meninos da etnia têm que colocar a mão em uma luva cheia de formigas e resistir à dor para demonstrar coragem. Só depois disso passam a ser considerados adultos. Os sateré referem-se ao seu lugar de origem como Nocoquem (morada do herói místico), uma região de floresta densa e pedregosa, cujas rocham falam.
PAUMARI

Os paumari são povos de língua da família arawá. Habitam o Rio Purus, no Amazonas, e são nômades. São um dos poucos grupos indígenas de médio Purus que sobreviveram aos confrontos armados do ciclo da borracha, que arrasaram vários nativos dessa região no século XIX. Suas habitações são constuídas em balsas, chamadas flutuantes. As casas têm em geral dois cômodos: um para dormir e fazer reuniões e outro para cozinhar. Além dessa habitação, os paumari vivem também em moradias temporárias, construídas com folhas de palmeiras, onde permanecem durante o período de coleta de castanha-do-Pará ou de outros produtos da floresta.
Fabricam alguns objetos domésticos, como cestos, peneiras, esteiras simples e cerâmicas sem pintura. Suas embarcações para pesca são canoas estreitas e longas, com remos cujas pás são ovais e pontudas. Os paumari são grandes usuários de rapé (um pó estimulante), que antigamente era empregado nas práticas xamânicas (práticas de cura) e hoje é consumido como entorpecente.
URUBU KAAPOR

Os urubu kaapor são prováveis descendentes dos tupinambá do litoral maranhense. Esse povo está adaptado intimamente à vida na mata, o que se evidencia em sua autodenominação: kaapor, ou "moradores da mata". Até em sua mitologia a floresta está presente.
Para sobreviver neça, os urubu tiveram de recriá-la mentalmente, dar nomes às coisas e atribuir-lhes sentido e utilidade. Da floresta amazônica eles tiram frutos alimentícios, matéria-prima para confecção de seus artefatos e construção de suas casas, arcos-e-flechas, cipós e folhas para amarrar e tecer, resinas para colar, fazer fogo e defumar, e árvores e plantas, a partir das quais fabricam tintas, venenos e remédios.
A mesma relação que criam com as plantas foi estendida aos animais, que também foram catalogados e receberam nomes e significados. Os urubu elegeram algumas espécies para servir de alimento, cercaram outras de restrições e proibiram a utilização alimentar da maioria. A etnia tem um profundo conhecimento dos hábitos doa animais, não só dos que utilizam como alimentos, adornos e artefatos, mas de quase todos que compõem a fauna da floresta que habitam.
Referência:
VENTURA, N. C. Índio: recontando a nossa história. 2 ed. rev. e ampl. – São Paulo: Noovha América, 2008.

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